Houve um tempo em que os artistas do repente eram os verdadeiros astros das festividades, e suas "Cantorias" atraíam multidões, como se a cidade estivesse em festa. O público era de encher os olhos com gente chegando de todo canto, só para ouvir os poetas. A poesia se vivia e se respirava.
O repente tinha seu prestígio. Novos talentos surgiam, e a imprensa e os poderes públicos davam o devido valor a essa arte. Um belo exemplo dessa luta foi o poeta Miguel Espinhara, que foi fazer uma cantoria no povoado de Santa Rosa, município de Ingazeira. Chegando um dia antes, encontrou-se às voltas com um simples homem. O relógio já marcava duas horas, e o poeta sentia fome.
Desesperado, Espinhara, com um sorriso no rosto, comentou: "Fome, né? Já engoli poeira até agora." O velho, talvez tocado pelas palavras do poeta, resolveu preparar um café e trouxe-lhe dois bolinhos de caco. O poeta, satisfeito, lambia os beiços, mas sabia que esperava uma noite de aplausos e cédulas gordinhas.
O salão lotou, mas a plateia não cooperou. Os aplausos ecoavam, mas logo o dono do salão chegou com um recado preocupante: o dinheiro arrecadado mal dava para cobrir o transporte. Furioso, Miguel olhou para os lados e, em tom de desabafo, disparou:
“Vim cantar em Santa Rosa,
Aqui não presta pra quem canta,
Passei o dia inteirinho,
Sem almoço e sem janta,
Não senti o cheiro da Rosa,
Nem o milagre da Santa.”
E, surpreendentemente, a matutada, sem perceber o tom crítico, aplaudiu com entusiasmo, fazendo o salão tremer.
Esse episódio, narrado por Itamar França, não é apenas uma história, mas um retrato vívido de uma época e de uma luta pela valorização da cultura popular. Uma lembrança de que, mesmo em tempos difíceis, a arte ainda pode ser um poderoso veículo de crítica e resistência.

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