terça-feira, 22 de outubro de 2024

Sargento Pedro balançou o esqueleto no casamento da filha do véi Mané e foi punido


Sargento Pedro trabalhou alguns anos numa unidade militar, sediada no Sertão do Estado. Era um militar vivedor, agora, aposentado, desfruta do sossego, lembrando das histórias da caserna.

Certo dia, a filha do véi Mané Cabrinha resolveu se casar, e a festa seria no sítio dele, com um jantar farto e uma animada tocada de forró. Mané avisou que mataria uns porcos e umas galinhas para a ocasião. Na quinta-feira, ele foi ao quartel e pediu segurança ao comandante, informando sobre a presença de convidados importantes.

O oficial designou o Sargento Pedro para a missão, já que eram amigos e Mané frequentemente agradava o referido sargento em sua casa com um prato especial. Ao chegar, Pedão animou os soldados, alertando-os para a beleza de uma matutinha na varanda. Entre risadas e provocações, os soldados se prepararam para a festa.

Após o jantar, todos se dirigiram para a sala de forró. O sanfoneiro começou a puxar o fole e o clima esquentou com o sargento  dançando animadamente com a matuta Amélia. Enquanto isso, o delegado, o juiz, o padre e o restante dos convidados elogiavam seus dotes de exímio dançarino. Balançando o esqueleto, suado feito tampa de chaleira, ele rodava no salão feito carripeta.

Terminada a festa, tudo calmo e na segunda-feira, o véi Mané foi agradecer ao comandante pelo policiamento escalado e aproveitando o ensejo elogiou os militares: - Coroné, os cabas que o senhor mandou deram um show, eles beberam Cerveja, Conhaque, Pitu, Montila, comeram e dançaram como nunca! O sargento, esse roubou a cena, arrasou no salão, parecia uma carripeta, agarrado com Amélia, a quem só largou no final da festa!

Após a saída de seu Mané, o comandante chamou Pedro e os seus comandados para dar uma bronca. Mas o soldado, folgado que só parafuso remoído, tentou suavizar a situação: - Comando, errar é humano. Atire a primeira pedra o praça que nunca caiu numa tentação por causa de um rabo de saia! 

O comandante, porém, cortou: - Cale a boca, soldado, estou falando com o graduado! E Soldado retrucou: - Eu só tô me intromentendo comando, porque o sargento não tá podendo falar, o pobre levou uma dentada na língua. Pia a cara dele, tenha dó. A risada tomou conta da sala, mas o sargento foi punido disciplinarmente. Na caserna, fatos dessa natureza não ficam impunes. É um regime da molesta!

A caixa d'água do Nego Trojão


Dona Cecília Preta, avó do saudoso Juarez Santiago, conhecido popularmente por Nêgo Trojão, decidiu fazer uma caixa d’água em sua casa para acabar com o “banho de cuia”. Naquele tempo, ter um banheiro com caixa d’água era sinal de luxo, e ela estava animada.

Cecília era muito conhecida no Bairro São Braz, onde criava cabras, galinhas e porcos, sempre ajudando os vizinhos. Nêgo Trojão, filho de Dedinho Pedreiro e neto de Cecília, era um jovem esforçado, tentando ganhar a vida honestamente e depoisfoi ser policial militar em São Paulo.

Quando ficou responsável pela construção da caixa, Trojão, seguindo o conselho de um amigo, optou por barro vermelho ao invés de cimento, achando que seria mais econômico. Comprou uma carroça de barro, uma de brita e uma de areia, misturando tudo com um pouco de cimento. Assim, a caixa d’água estava pronta!

Os vizinhos ajudaram a encher a caixa, mas logo notaram que o barro escorria pelas paredes. Um deles avisou: “Dona Cecília, essa caixa não está segura!” Mas ela ignorou, confiando no neto e desejando inaugurar a caixa com um banho.

Quando chegou à sexta lata, resolveu verificar a caixa. Para seu desespero, ela desabou, e o vizinho que a havia alertado gritou: “Eu avisei, mas a senhora não escutou!”

Um camarada correu para avisar Trojão, que ao chegar encontrou a avó indignada: - Como você pôde fazer uma caixa d’água de barro? Quase me acaba!

Trojão, cabisbaixo, explicou: “Desculpa, vó. Achei que o barro era mais forte. Vou falar com meu amigo que me aconselhou!”

Cecília, com humor, completou: “Peça uma indenização pelo dano causado.”

Trojão riu e respondeu: “Como ele vai pagar, se mora no abrigo São Vicente? A senhora é que tem que dar alguma besterinha pra ele, coitado!” E todos caíram na risada.

O cavalo relâmpago de Neco Amâncio


O fazendeiro Neco Amâncio, pai do sanfoneiro Zé de Neco, tinha um cavalo maravilhoso, grande, alto, de porte imponente e domado no andar a trote de fazer inveja aos melhores criadores e domadores e admiração aos, como eu, menino ainda, leigo em cavalos e doma.

O nome do cavalo era Pombo Roxo. Todo sábado havia até uma certa expectativa entre a molecada da Rua Manoel Mariano, onde morava o filho de seu Neco, para ver ele chegar de Dois Riachos montado no Pombo Roxo.

De longe se ouvia o bater de cascos compassados do cavalo a trote, ou seja, sempre mantendo uma das patas no chão, resultando assim num andar mais confortável para o cavaleiro que não é sacolejado para cima e para baixo como no galope.

Se não bastasse tanto, havia ainda os arreios de Pombo Roxo, peças preciosas da arte em couro, feitas a capricho por Vicente Celeiro, pai do nosso amigo futebolista Martinho Souto. Eram rédeas, sela, bridão, buçal, peiteira, finamente trabalhadas e com adereços de prata pura.

Tudo aquilo inflava o ego do sertanejo Neco Amâncio, de trato rude e severo, mas que se desmanchava em açúcar diante do menor elogio ao seu cavalo.

Um belo dia Seu Neco levou um rádio para meu pai consertar.

Deixou de manhã e retirou à tarde, o conserto foi simples e meu pai tinha a peça em estoque.

Como gastou mais do que esperava com as compras e as bicadas, deixou para pagar no sábado seguinte, o que não era problema nem novidade para um homem de palavra e com crédito sem limites onde quer que fosse.

No sábado seguinte chegou Seu Neco para pagar o conserto do rádio e um dedo de prosa com Limeira, o meu pai.

Disse Seu Neco - Sabe Limeira, sábado passado me demorei na conversa com Antonio Izidio lá perto da ponte e já na metade do caminho começou a escurecer e ameaçar uma chuva.

Fiquei pensando em não molhar nem as compras nem o rádio e fiquei vigiando aquele nevoeiro vindo na minha direção.

Apertei o passo do Pombo Roxo e a chuva veio vindo e eu apertando o passo e a chuva vindo. Sentia o cheiro da bruta molhando a poeira da estrada e Pombo Roxo sereno no passo.

Prá encurtar a conversa, quando cheguei na fazenda, tinha molhado somente a garupa.

A carreira de Marconi Edson


Gilberto Santos foi um destacado radialista esportivo em Afogados da Ingazeira, nos idos 70 e 80. Certa vez, durante uma partida de futebol entre Guarani e Ferroviário no Estádio Paulo de Souza Cruz, no antigo Campo da Cadeia, ele se surpreendeu com a rapidez do saudoso sonoplata, Marconi Edson.

O jogo estava 0x0 e o estádio arroadeado de gente. Gilberto, com sua voz imponente, narrou: "São 40 minutos do segundo tempo. Placar: zero para o Guarani, zero para o Ferroviário. Vem de lá Marconi Edson!" Ao ouvir a chamada de Gilberto, Marconi partiu numa carreira da gota em direção ao campo.

Ao chegar, bastante cansado, ele acenou: "O que é que você quer, Gilberto? Deixei a rádio sozinha!" 

Sem perder o ritmo, Gilberto respondeu: "São 44 minutos de jogo, zero a zero, e aqui está Marconi Edson, o controlista mais bisonho do rádio brasileiro. Volta pru estúdio danado, era pra tu ter rodado as vinhetas dos comerciais!"

Furioso, Marconi retornou à emissora rapidamente. Até hoje, quando falam desse episódio, ele não perde a chance de relembrar que isso foi invenção de Aldo Vidal e Francys Maya.

Sonho afogadense


Não é de hoje que um mandato de vereador em Afogados da Ingazeira fascina meio mundo, que o diga Cícero Miguel, recordista em mandatos consecutivos e pedidos de explicação e providências ao executivo que via de regra nem explica e tampouco providencia.

O barbeiro Elesbão também acalentava este sonho.

Inúmeras vezes foi candidato e como muitos fazia sua campanha populista ao seu modo, ou seja, cortando cabelos de graça, mas nunca passou de último suplente, uma única vez.

Numa dessas eleições também foi candidato Antônio Izidio, vice-rei do Bairro da Ponte e do Costa e discursador oficial em todos os sepultamentos daquela época no São Judas Tadeu.

Quem como eu tem mais de 50 janeiros, boa memória e foi a algum enterro na juventude, deve lembrar daqueles discursos pomposos onde ele citava inclusive as moedas para pagar ao barqueiro Caronte, pela travessia do rio Letes, o rio do esquecimento, que ficava na entrada do Hades, o reino dos mortos, segundo a mitologia grega.

Quando digo que Afogados já foi mais culta, tenho minhas razões.

Mas voltando à eleição para vereador:

Elesbão era mais uma vez candidato e Antonio Izidio iria estrear na politica afogadense com tesão de noivo e confiança em seus discursos rebuscados.

Na véspera do pleito, Antonio Izidio foi à barbearia de Elesbão para barba e cabelo e lógico, dedos e mais dedos de prosa boa pois eram amigos muito chegados.

Ao chegar encontrou Elesbão terminando de cortar o cabelo do filho mais velho de João Limeira que na época deveria ter uns 12 ou 13 anos e tinha o vício de observar e escutar.

Terminado o corte, o menino ficou por ali folheando revistas O Cruzeiro de meses passados e de ouvidos antenados.

Antonio Izidio sentou na cadeira, Elesbão lhe colocou os paramentos e começou a preparar a navalha Solinger e a espuma Bozzano. Enquanto isso começa o bate-papo:

Disse Elesbão - Veja só Izidio, estou sabendo que você é candidato também e queria lhe fazer uma proposta.

Responde Izidio - Se a proposta for boa...

Elesbão - Pela lei eleitoral, o candidato não pode votar nele mesmo e nem a esposa pode votar no marido senão o voto é impugnado pelo Doutor Demócrito.

Izidio resmunga - Tá danado! E eu mais Orora (Aurora) vamos votar em quem? Vamos perder os votos?

Elesbão dá a solução - Vocês votam em mim e eu e minha patroa votamos em você e assim o Doutor não impugna voto nenhum.

Izidio desconfia - Mas isso é certo mesmo?

Elesbão responde - Se não acredita, pode ir perguntar ao Doutor Demócrito.

Izidio se rende - Precisa não, o doutor pode se aborrecer, estamos combinados.

Passada a votação, as urnas são todas depositadas no ACAI, sob guarda da policia para apuração no dia seguinte.

Concluída a apuração, Antonio Izidio não teve um voto sequer e indignado se encheu de coragem e foi perguntar ao Doutor Demócrito sobre a tal proibição de candidato votar em si mesmo e esposa votar no marido.

Depois da explicação do juiz, Elesbão que teve 4 votos e não pegou nem mesmo suplência, perdeu o freguês e o amigo e encerrou sua "carreira politica". Gilberto Moura

A nota de falecimento atrasada lida por Toninho no Grau


Toninho Soares é o mais fanático por microfones que se pode imaginar. Ele apresenta um programa diário na Rádio Pajeú e já foi cantor de forró, chamador de bingo e motorista de carro de som. Onde tem microfone, ele tá lá.

Certa vez, enquanto apresentava o programa, recebeu uma nota de falecimento de uma senhora do Sítio São João. Distraído com os comerciais, mandou alô pra todo mundo, incluindo Marco Vasco que estava morando em Brasília. Quando percebeu que a nota estava atrasada, ficou nervoso e, em alta velocidade, leu:

"Os familiares de Maria Francisca de Souza, conhecida como Chica de Zé Moraes, convidam para o seu sepultamento hoje às cinco horas no Cemitério Parque da Saudade."

O problema? Já eram 17h15 e o corpo já tinha saído! Toinho, sem perceber, gritou: "Corra que ainda dá tempo de pegar, acho que o caixão ainda não chegou ao cemitério!" E assim ele leu a nota da falecida, quinze minutos após a saída do corpo. E a história ficou registrada nos meus causos.

A morte de Ililson Góes


Elilson Góes é natural de Sertânia, esteve Secretário de Cultura daquele município, mas teve toda a sua vida uma relação com o rádio interiorano, já passando como radialista e Diretor por várias delas como Itapuama FM, Santa Maria de Monteiro e Transertaneja FM. É um dos grandes amigos que construí nesse mundo da radiodifusão.

Quando passou pela FM afogadense, Elilson foi sem querer protagonista de uma das mais tristes histórias dos mais de 15 anos da emissora: a sua própria morte. Em 1994 a rádio cobria pela segunda vez os Jogos Escolares Regionais, dirigida por Edcarlos Bezerra e tendo no seu quadro Nill Júnior, Wellington Rocha, Elilson Góes e o próprio Edcarlos.

Ocorre que vindo da temida Serra de Teixeira, Elilson sofreu um acidente. A primeira notícia que chegou a emissora em Afogados foi que ele estava em estado gravíssimo. Trocando em miúdos, era só esperar a fatídica hora de anunciar sua morte. Mesmo com uma cobertura tão importante, a equipe da Transertaneja à época não teve dúvidas: começou a tocar apenas músicas fúnebres instrumentais e chamava com flashes do Centro Desportivo.

Nill Júnior e Wellington Rocha não paravam de anunciar em tom de nota de sepultamento: “Estamos aqui anunciando os resultados apenas por compromissos com nossos patrocinadores, mas de coração partido, pois nosso companheiro Elilson está à beira da morte vítima desse acidente. Pedimos a Deus e a todos que orem por ele”. Aquela altura ninguém pedia pela restauração dele e sim por ele. Ou seja, para que Deus o pusesse em bom lugar no céu. Não acreditavam nem que escapasse...

Para o dia seguinte já se esperava que a notícia fosse da hora do sepultamento, local, etc. Dono da rádio, Inocêncio Oliveira já preparava uma nova de pesar. A Direção já solicitara ao governo municipal decreto de luto oficial por três dias. As flores já estavam encomendadas à floricultura. O clima era de tristeza. Da recepcionista à direção, olhos marejados pelo colega que se fora...

Eis que surge o próprio Elilson na porta da emissora bem vivo, apenas com leves escoriações. “Oxe Elilson, tu num tava quase morto?” – perguntaram os profissionais achando se tratar de uma alma se despedindo. “Agora pronto, foi só um susto. Eu não mandei dizer que apesar do susto estava tudo bem?” Nill Júnior – ainda dando seus primeiros passos e totalmente inexperiente - grelou os olhos e disse :” Mas a recepcionista entendeu que o recado era PRA GENTE NÃO TER SUSTO, MAS NÃO TAVA NADA BEM”...

Pronto, lá se foram todos os comunicadores pra o ar anunciar A VOLTA DO MORTO VIVO ELILSON, desfazendo uma das maiores gafes da história da emissora. Por Nill Júnior

O Touro Mimoso, o Fazendeiro e o Americano


Nos meus tempos de criança, Afogados e Região era grande produtora de algodão, verdadeiro ouro branco que fez a prosperidade de muitos e a miséria de outros tantos quando sucumbiu à praga do bicudo. Como a região foi colonizada por patas de boi, ou seja, desbravada pela Casa da Torre para a criação extensiva de gado bovino destinado a alimentar os escravos dos engenhos de açúcar do litoral, arraigou-se na região a pecuária bovina, ainda que rudimentar e de pouca produtividade.

Mesmo assim, cheguei a ver e visitar fazendas maravilhosas, geradoras de riquezas e de empregos tanto na lavoura quanto na pecuária e na rudimentar agro-indústria da farinha de mandioca e dos engenhos de melaço e rapadura. Passado quase meio século, posso citar a Fazenda Riacho do Mel de Posidônio Gomes, homem poderoso, pai de deputado, prefeito de Afogados e de Sertânia onde repousam seus restos mortais; cito ainda a fazenda de José Virgínio em Iguaraci que fazia a melhor rapadura da região, a fazenda de Lolô na Serrinha, a dos Rafael em Jabitacá e acima de todas elas, a que mais me impressionava pelo dinamismo e pujança, a fazenda de Anselmo Correio na Queimada Grande. Propriedade maravilhosa, ricamente aparelhada com engenho e casa de farinha, açude, tropa de cavalos de grande qualidade e rebanho bovino dos melhores da região.

Hoje recordo com tristeza, todas sem exceção deixaram de produzir. Viraram casa de campo de algum herdeiro mais esperto ou foram retalhadas e vendidas na bacia das almas a troco de banana. Mas, deixando a tristeza de lado, voltemos ao relato.

Anselmo Correia era um empreendedor, um curioso nato, um autodidata. Daquela figura minúscula fisicamente sempre se podia esperar grandes feitos, a forma como tocava sua fazenda era a prova maior de sua capacidade pessoal. Seu rebanho bovino não se resumia ao gado pé-duro, tão comum no Sertão, descendente ainda do gado português de baixa qualidade com o qual Garcia D'Ávila colonizou a sua sesmaria, era muito melhor, pois Seu Anselmo, já naquela época pensava em melhoramento genético, inseminação artificial e tantas outras técnicas que só viriam a se popularizar a pouco mais de 10 anos.

Na sua fazenda tinha um reprodutor, um touro guzerá meio-sangue, de grande produtividade, chamado Mimoso. Naquele tempo não havia congelamento de sêmem em nitrogênio como hoje, colhia-se o sêmem na hora, fazendo o touro ejacular numa vulva artificial, dividia-se o sêmem em doses menores e aplicava nas vacas ali mesmo. Cada monta de Mimoso rendia de 10 a 15 doses de sêmem de alta qualidade e sempre resultavam em prenhês positiva e bezerros de boa linhagem. Não bastasse tanto, Mimoso era de uma docilidade inacreditável para um animal daquele porte, era portanto, o xodó do velho fazendeiro. Mas, o tempo é o tempo e por conta do tempo, Mimoso foi ficando velho e suas qualidades reprodutivas foram escasseando e para Seu Anselmo aquilo era desesperador. Na época Afogados tinha a filial de uma empresa americana que comprava algodão "in natura", a Boxwell & Cotton Company. Não sei como, mas o certo é que a decadência de Mimoso chegou aos ouvidos de um agrônomo americano que prestava serviços à Boxwell.

Assim é que certo dia esse senhor chegou a fazenda de Anselmo Correia com uma maleta muito bonita, querendo uma meia hora de atenção, segundo ele para resolver o problema do touro Mimoso.

Seu Anselmo era um cavalheiro, recebeu a visita, mandou servir sucos e frutas e se colocou à disposição do americano.

O americano começou a falar com seu carregado mas compreensível sotaque:

- Senhor Anselmo, o que trago para lhe demonstrar, vai resolver a baixa produtividade do seu reprodutor por mais 5 ou 6 anos, ele vai voltar a produzir com a mesma freqüência e quantidade de um touro novo.

Dito isto, abriu a maleta e apresentou a sua maravilha:

- Veja Senhor Anselmo, isto é um ejaculador eletromagnético, a última grande invenção da veterinária americana!

Disse isto exibindo um cilindro de cobre do diâmetro de uma garrafa de refrigerante com uns 60 centímetros de comprimento e ligado por dois fios a um magneto de manivela, semelhante aqueles usados em telefones antigos e que a policia menos esclarecida usava e até usa hoje em dia como instrumento de interrogatório.

E explicou:

- Veja que simplicidade senhor Anselmo, o senhor introduz esta sonda (o cilindro de cobre) no ânus do touro e gira esta manivela, dai ocorre uma descarga elétrica cientificamente calculada no organismo do touro e ele ejacula.

Seu Anselmo ficou contemplando aquela parafernália à sua frente e sem encontrar razoabilidade alguma naquela proposta, indagou:

- O senhor está sugerindo que eu coloque isso no meu touro e ainda dê um choque? O senhor já viu meu touro? Já cortou palma para ele? Já deu água? Já fez um carinho na testa? Já viu os netos de 5 a 6 anos brincando com ele como quem brinca com um gatinho ou um cachorrinho? Já viu um filho do meu touro? Sabe de quantos campeões de exposição ele é pai por esse mundo a fora? Tem idéia de quanto dinheiro ele já me deu? E finalizou:

- Meu amigo, se eu lhe disser onde eu estou com vontade de enfiar esse troço e dar um choque o senhor não acredita! Acredita?

O americano respondeu:

- Senhor Anselmo, eu acredito, até mais ver Seu Anselmo, até mais ver.

O americano nem esperou seu Toreba ir buscá-lo de volta, foi a pé da Queimada Grande até Afogados, e foi ligeiro, "visse"? Gilberto Moura

A luta do Nego Daniel contra He Man em Carnaíba


No final dos anos 90, um circo passou por Carnaíba, trazendo como atração principal um homem forte de cabelos longos, apelidado de He Man. Desde que me entendo por gente, nunca vi alguém tão potente. Ele começava suas apresentações agradecendo ao Deus de Davi, impressionando o público com tamanha fé.

A cada dia, o espetáculo atraía mais espectadores, com He Man enfrentando vinte homens e os fazendo correr. Até velhos de 80 anos em cadeiras de rodas iam o circo para ver suas lutas. O clima esquentou a expectativa quando o carro de som anunciava a batalha contra o desafiante Nêgo Daniel. Eu imaginava que ele seria um lutador forte, uma cabra marrudo e tudo mais.

Naquela noite, a arquibancada estava cheia, e o cheiro de pipoca e algodão doce preenchia o ar. Quando Nêgo Daniel entrou no ringue, a vaias e assobios tomaram conta do espaço. Ele parecia um grilo, com a deficiência em uma das pernas e com um cigarro no bico, enquanto He Man, robusto e imponente, subia nas tábuas, arregaçando o ringue.

A luta começou e, na primeira pancada, Nêgo Daniel voou quase para fora do ringue, correndo como um gato assustado. Tentou se esquivar, mas seus comparsas o cercaram. Em menos de dois minutos, a luta terminou, e o público ficou frustrado, exigindo o dinheiro de volta. Muitos juraram vingança contra Nêgo Daniel.

No dia seguinte, ele apareceu no circo com uma chupeta na boca, desafiando a raiva da multidão. Anos depois Daniel partiu dessa para outra, mas a história do seu embate com He Man ficou marcada na memória de muitos que lá foram assistir. 

O dia do aperreio do vereador Renaldo Lima


marinheiro de primeira viagem na Câmara de Afogados da Ingazeira, o vereador Renaldo Lima foi bem comedido, entrava na Casa legislativa calado e saía mudo. Pegou uma legislatura com figuras ativas como Augusto Martins e Hamilton Marques, que faziam o debate. Renaldo, coitado, era apenas um espectador de um espetáculo que não lhe dizia respeito, pelo menos naquele início de vida pública.

A Câmara estava sempre cheia, com o povo ávido por ouvir as vozes de alguns parlamentares que não tinham papas na língua. Numa dessas sessões quentes, Renaldo estava bastante nervoso. Enquanto Hamilton falava, a bancada de Augusto rebatia em alto e bom som. Renaldo torcia para não ser chamado, mas o presidente da Casa à época, Erickson Torres, decidiu lhe passar a palavra sem aviso.

Diante de um público cheio de expectativa, Renaldo ficou paralisado, gaguejando “alô som” sem parar, como se estivesse testando um microfone quebrado. O branco tomou conta dele, e a tensão era palpável. Quando o Presidente perguntou se ele queria trocar de microfone, Renaldo, apavorado respondeu que preferia passar seu tempo para Augusto Martins.

O microfone, no entanto, caiu de suas mãos, e a risada foi geral. O pobre Renaldo parecia estar com uma brasa na mão, enquanto todos se divertiam com seu mico. Era uma cena digna daquelas comédias que a gente só vê na política!

A cantoria de Miguel Espinhara em Santa Rosa


Houve um tempo em que os artistas do repente eram os verdadeiros astros das festividades, e suas "Cantorias" atraíam multidões, como se a cidade estivesse em festa. O público era de encher os olhos com gente chegando de todo canto, só para ouvir os poetas. A poesia se vivia e se respirava.

O repente tinha seu prestígio. Novos talentos surgiam, e a imprensa e os poderes públicos davam o devido valor a essa arte. Um belo exemplo dessa luta foi o poeta Miguel Espinhara, que foi fazer uma cantoria no povoado de Santa Rosa, município de Ingazeira. Chegando um dia antes, encontrou-se às voltas com um simples homem. O relógio já marcava duas horas, e o poeta sentia fome.

Desesperado, Espinhara, com um sorriso no rosto, comentou: "Fome, né? Já engoli poeira até agora." O velho, talvez tocado pelas palavras do poeta, resolveu preparar um café e trouxe-lhe dois bolinhos de caco. O poeta, satisfeito, lambia os beiços, mas sabia que esperava uma noite de aplausos e cédulas gordinhas.

O salão lotou, mas a plateia não cooperou. Os aplausos ecoavam, mas logo o dono do salão chegou com um recado preocupante: o dinheiro arrecadado mal dava para cobrir o transporte. Furioso, Miguel olhou para os lados e, em tom de desabafo, disparou:

“Vim cantar em Santa Rosa,
Aqui não presta pra quem canta,
Passei o dia inteirinho,
Sem almoço e sem janta,
Não senti o cheiro da Rosa,
Nem o milagre da Santa.”

E, surpreendentemente, a matutada, sem perceber o tom crítico, aplaudiu com entusiasmo, fazendo o salão tremer.

Esse episódio, narrado por Itamar França, não é apenas uma história, mas um retrato vívido de uma época e de uma luta pela valorização da cultura popular. Uma lembrança de que, mesmo em tempos difíceis, a arte ainda pode ser um poderoso veículo de crítica e resistência.

Sargento Pedro balançou o esqueleto no casamento da filha do véi Mané e foi punido

Sargento Pedro trabalhou alguns anos numa unidade militar, sediada no Sertão do Estado. Era um militar vivedor, agora, aposentado, desfruta ...